
Maracujá
Nome científico: Passiflora edulis Sims.
Sinônimos: Passiflora diaden Vell.; Passiflora edulis F. edulis; Passiflora edulis F. Flavicarpa Degener; Passiflora gratissima A. St.-Hil.; Passiflora incarnata L.; Passiflora iodocarpa Barb. Rodr.; Passiflora middletoniana J. Paxton; Passiflora pallidiflora Bertol.; Passiflora picroderma Barb. Rodr.; Passiflora pomifera M. Roem.; Passiflora rigidula J. Jacq.; Passiflora rubricaulis Jacq.; Passiflora vernicosa Barb. Rodr.
Família: Passifloraceae.
Distribuição: A família Passifloraceae possui 12 gêneros, dentre os quais o gênero Passiflora se destaca, contendo aproximadamente 500 espécies distribuídas nas Américas. Especificamente no Brasil, estima-se números entre 111 e 150 espécies nativas, e a espécie Passiflora edulis Sims é a mais cultivada. Além disso, com base em relatórios anteriores, de todas as espécies da família Passifloraceae a P. edulis representa 90% da área cultivada com maracujá no mundo.
Origem: É originária da América do Sul, variando desde o Brasil até o Paraguai e ao norte da Argentina, embora haja alguns relatos sobre sua presença na Venezuela e na Colômbia. É largamente cultivado na África tropical, sudeste da Ásia, América tropical e Caribe.
Nomes populares: Maracujá e Maracujá comum.
Partes utilizadas: Folhas, frutos, casca e sementes.
Aspectos botânicos: É uma planta trepadeira herbácea, que cresce até 0,5-2 m de altura e sobe usando talos axilares.
Caules - finos, angulares, estriados, glabros ou puberulentos.
Folhas - arranjadas alternadamente, em forma de ferradura ou 'v', com três nervuras principais, coriáceas, com dois lóbulos que se separam em um ângulo entre 45-93°, os lóbulos podem ser oblanceolados, oblongos ou lineares, com 2,2-6,5 × 0,4-1,4 cm, ápices arredondados ou afilados, base cuneada ou arredondada, margem ondulada, revirada; superfície superior com pelos finos; face inferior lisa, com veias salientes; pecíolos com 3-5 mm de comprimento, estreitos e sem glândulas; estípulas finas, de aproximadamente 4 mm de comprimento; gavinhas simples, filamentosas.
Flores - axilares; brácteas curvas, não formando um invólucro; haste de cerca de 10 mm, articulada próxima ao ápice; sépalas oblongas, verde-escuras, entre 4-6 mm; pétalas verde-pálido, também oblongas e do mesmo tamanho das sépalas; coroa formada por duas fileiras de filamentos finos e verde-pálidos, tão longos quanto as sépalas; ginóforo de cerca de 2 mm de comprimento, tubular; estames 5; ovário em forma de clavo, estiletes curvos, estigmas em forma de cabeça.
Fruto - é uma pequena baga, geralmente de forma arredondada, com cerca de 1 a 1,4 cm de diâmetro, tendo uma cor quase preta e opaca.
Sementes - são abundantes, ovaladas, cerca de 2,3 mm de tamanho, com linhas estriadas ao longo da superfície.
Habitat: A espécie floresce em regiões tropicais e subtropicais úmidas – principalmente florestas e cerrados, bordas de florestas, clareiras e áreas ribeirinhas de florestas. Possivelmente, ele se aproveita da estrutura de vegetação arbórea ou do terreno irregular, já que seus tentáculos e tendência para escalar permitem que ele cresça e se estenda por cima de seu entorno para coletar recursos.
Uso popular: É amplamente utilizada, desde aspectos decorativos devido a suas flores radiantes, bem como no âmbito alimentar como bebidas, néctares, concentrados, geleias, óleo e temperos e ervas culinárias, na medicina tradicional como chá, usado principalmente como sedativo, para induzir o sono, para aliviar espasmos e dores. Os dados obtidos das Informações Sistematizadas da Relação Nacional de Plantas Medicinais de interesse ao SUS relatam a aplicação tópica de compressas do infuso das partes aéreas da planta para tratar sintomas de hemorróidas, inflamações na pele e aliviar lesões tópicas em geral.
Composição nutricional: Um maracujá de 100 gramas contém 98 calorias, 1 g de gordura, 2 g de proteína, 23 g de carboidratos, 10 g de fibra, 11 g de açúcar, 12 mg de cálcio, 1,6 mg de ferro e 30 mg de vitamina C. O maracujá é uma boa fonte de minerais. Ferro, cobre, fibra, potássio, magnésio e fósforo estão presentes em quantidades adequadas.
Segurança alimentar: as frutas contêm um glicosídeo cianogênico na polpa. Este por sua vez , geralmente está presente em maior concentração em frutas verdes, em contraste a frutas maturadas. Portanto, esse metabolito não oferece riscos à saúde, uma vez que os frutos e derivados são consumidos na forma maturada.
Composição química:
Flavonoides
Flavonóis: artemitina, fisetina, galangina, kaempferol, kaempferol-3-glicosídeo, quercetina, quercetina-3-glicosídeo, glicosídeo de quercetina, quercetina-3,7-di- o -hexosídeo, quercetina-3- o- (6″-acetil-glicosídeo), quercetina-3- o- (acetil-glicosídeo), quercetina-3- o -rutinósido, quercetina-7- o -glicosídeo, quercetina -o -glucopiranósido, digalato de teaflavina, epigalocatequina, galato de epigalocatequina, epicatequina, catequina.
Flavonas: apigenina, crisina-8-c-(2″-o - α-6-desoxi-glucopiranosil)-β-d-glucopiranósido, luteolina, luteolina glicosídeo, luteolina-3-glucosil-ramnósido, luteolina-6- c -glicosídeo, luteolina-7- o -glicosídeo, luteolina-8- c- (2- o -ramnosil)hexosídeo, luteolina-8- c -digitoxósido, luteolina-8- c -neohesperosídeo, luteolina-8- c -β-boivinopiranósido, luteolina-8- c -β-digitoxopiranosil-4'- o -β-d-glucopiranósido, luteolina-ramnosil-glicosídeo.
Antocianinas: cianina, cianidina, cianidina glicosídeo, cianidina-3-(6″-malonilglicosídeo), cianidina-3-glicosídeo, cianidina-3- o -rutinosídeo, delphinidina, delphinidina-3,5-glicosídeo, malvidin-3,5-diglicosídeo, pelargonidina, pelargonidina-3-glicosídeo, peonidina-3- o -glicosídeo.
Outros flavonoides: daidzein, eriodictiol, genisteína, naringina diidrocalcona, floretina glicosídeo, quercetina-3- o- (6″-acetil) glucosil-2″-ácido sinápico, taxifolina.
Ácidos fenólicos
Ácidos hidroxibenzóicos: ácido vanílico, ácido siríngico, ácido salicílico, ácido protocatecuico, ácido protocatecuico, ácido protocatecualdeído, ácido gálico.
Ácidos hidroxicinâmicos: ácido sinápico-hexosídeo, ácido rosmarínico, ácido p -cumárico, ácido ferúlico, ácido cinâmico, ácido clorogênico, ácido cafeico.
Estilbenos: resveratrol, piceatannol.
Outros polifenóis: icarisídeo E5, cirtrusina A.
Carotenóides
β-caroteno, α-caroteno, zeaxantina, trans-β-caroteno, trans-ζ-caroteno, provitamina a, prolicopeno, policis – caroteno, fitoflueno, luteína, criptoxantina, cis-β-caroteno, cis-ζ-caroteno, anteraxantina.
Glicosídeos cianogênicos
Sambunigrina, prunasin, mandelonitrila rutinosídeo, (r)-mandelonitrila α-l-ramnopiranosil- β-d-glucopiranósido, amigdalina.
Ácidos orgânicos
Ácido succínico, ácido malônico, ácido málico, ácido lático, ácido cítrico.
Compostos mono e sesquiterpênicos
α-terpineno, β-ocimeno, β-mirceno, α-terpinoleno, α-terpinoleno, α-terpineol, α-terpineno, terpinen-4-ol, sabinense, nerol, acetato de linalila, linalol, limoneno, geraniol, citronelol, 2,6-dimetilocta-3,7-dien-2,6-diol, 2,6-dimetilocta-1,7-dien-3,6-diol, 2,6-dimetil-1,8-octanodiol, (z)-8-hidroxilinalool, ( e )-8-hidroxilinalool, (1s)-α-pineno.
Norisoprenóides
β-ionona, vomifoliol, 3-oxoretro-α-ionóis isoméricos, dihidro-β-ionona, deidrovomifoliol, 4-oxo-β-ionona, 4-oxo-β-ionol, 4-oxo-7,8-di-hidro-β-ionol, 4-hidroxi-β-ionol, 4-hidroxi-7,8-di-hidro-β-ionol, 3-oxo-α-ionol, 3-oxo-7,8-di-hidro-α-ionol, 3-hidroxi- retro -α-ionol, 3,4-dihidro-3-oxo-edulano, 3-oxo-7,8-di-hidro-β-ionol.
Ácidos graxos
Ácido lignocérico, ácido beénico, ácido gadoléico, ácido araquídico, ácido linolênico, ácido linoleico, ácido oleico, ácido esteárico, margaroleico, ácido margárico, ácido palmitoleico, ácido palmítico, ácido mirístico.
Esteróis
β-sitosterol, estigmasterol, estigmatanol, clerosterol, colesterol, campesterol, campestanol, brassicasterol, δ7 -estigmastenol, δδ7 -campesterol, δ7 -avenasterol, δ5,24 -estigmastadienol, δ5 -avenasterol.
Droga vegetal (Farmacopeia Brasileira): consiste de folhas secas de Passiflora edulis Sims contendo, no mínimo, 1,0% de flavonoides totais, expressos em apigenina (C15H10O5, 270,24).
Farmacologia:
Ensaios in vitro:
Atividade antitumoral (Extrato etanólico das folhas) na concentração de 1.000 μg/mL;
Atividade neurofarmacológica com modulação do ácido gama-aminobutírico (Extrato etanólico 50%) nas concentrações 0,1-1.000 µg/mL;
Atividade antitrombina (Extrato metanólico e diclorometano) nas concentrações de 30 a 60 mg/mL;
Atividade antioxidante (Extrato aquoso e extrato etanólico 70%) com os flavonoides isolados vicenina, isovitexina e orientina com a atividade mais efetiva na planta;
Atividade anticancerígena (Extrato etanólico 95% da planta inteira, floração e frutificação) na concentração de 100 µg/mL;
Atividade antibacteriana (Extrato metanólico) nas concentrações de 12,5-100 μg/mL.
Ensaios in vivo:
Atividade anticonvulsivante e ansiolítica (Extrato etanólico, metanólico e aquoso das folhas) com dose de 200 e 400 mg/kg, via intraperitoneal (Controle: Fenitoína 25 mg/kg);
Atividade anticonvulsivante (Extrato aquoso, metanólico e hidroetanólico 50% das folhas) com dose de 600 mg/kg, via intraperitoneal (Equipotentes ao Diazepam 4 mg/ kg);
Atividade antiasmática (Extrato metanólico das folhas) com dose de 100 e 200 mg/kg, via oral;
No tratamento de abstinência de nicotina (Extrato metanólico das partes aéreas) com dose de e 125 mg/kg (Significativo em relação ao Diazepam 2 mg/ kg);
Estimulante sexual (Extrato metanólico das partes aéreas) na dose 100 e 150 mg/kg, via oral;
Atividade antitussígena (Extrato metanólico das partes aéreas) na dose de 100 e 200 mg/kg, via oral (Comparação ao padrão Codeína 10 e 20 mg/kg);
Proteção contra alterações sexuais provenientes do uso crônico de álcool e nicotina com a Benzoflavona isolada (Extrato metanólico das partes aéreas) com dose de 10 mg/kg, via oral;
Reversão da dependência e tolerância à morfina com a Benzoflavona isolada (Extrato metanólico das partes aéreas) com dose de 10, 50 e 100 mg/kg;
Tratamento de abstinência de canabinoides com Benzoflavona isolada (Extrato metanólico das partes aéreas) com dose de 10 e 20 mg/kg, via oral;
Atividade analgésica e anti-inflamatória (Extrato metanólico das folhas) com dose de 200, 300 e 400 mg/kg, via intraperitoneal;
Atividade Antiestresse (Extrato aquoso) com dose de 100 mg/kg, via intraperitoneal;
Atividade imunomoduladora com a Crisina isolada (Extrato das partes aéreas) 3 mg/kg, via intraperitoneal;
Atividade sedativa e hipnótica (Extrato aquoso da erva 8:1 (Etanol 70%) a 4% de flavonoides determinado por CLAE) com dose de 250 mg/kg;
Atividade analgésica (Extrato butanólico das folhas) com dose de 150 e 300 mg/kg;
Atividade antidiabética (Extrato metanólico das folhas) com dose de 100 e 200 mg/kg, via oral.
Ensaios ex vivo: animais previamente tratados com estrogênio tiveram seus úteros removidos e colocados em um banho de órgãos. Estímulos químicos como KCl e acetilcolina foram usados para verificar a resposta do útero. O extrato hidroalcoólico das partes aéreas aumentou a contração espontânea do útero induzida pelo KCl, mas não promoveu respostas a acetilcolina. Os resultados sugerem que alguns dos componentes da planta aumentam a contração uterina precoce durante a gravidez.
Estudos clínicos:
Fase I
A dose de 2 comprimidos (Equivalente a 200 mg da droga vegetal) 2x ao dia por 28 dias aumentou a sonolência;
O chá contendo 2g da droga vegetal 1x ao dia (200 mL) durante 7 dias melhorou a qualidade do sono;
Utilização de 6 comprimidos com equivalente a 32 mg para análise das frequências de seus Eletroencefalogramas (EEG), relatando propriedades calmantes e antidepressivas no EEG;
Os demais estudos clínicos não detalham a espécie passiflora avaliada.
Fase II
O xarope na concentração de 700 mg/5 mL suprimiu o aumento da ansiedade;
A suspensão em gotas de 15 mg/3x ao dia e 45 mg antes de dormir reduziu os sintomas da menopausa e sintomas vasomotores;
Comprimido com 80 mg antes de dormir melhora a latência do sono e escores de insônia;
A utilização de comprimidos de Oxazepam (30 mg) com 45 gotas de extrato da droga vegetal teve grande diferença em quadros de ansiedade generalizada;
A utilização de 60 gotas de extrato da droga vegetal e um comprimido por dia de 0,8 mg foram eficazes no tratamento de pacientes viciados em opiáceos;
Comprimidos de 0,04 mg/kg/dia em crianças com hiperatividade e déficit de atenção demonstraram melhora.
Interações medicamentosas: Não é recomendado utilizar com outros medicamentos depressores do sistema nervoso central.
Contraindicações: Para grupos de risco como crianças, grávidas e idosos.
Toxicidade (Estudos não clínicos)
Toxicidade in vitro: o extrato alcoólico de toda a planta foi testada em relação à citotoxicidade em células linfoblastoides Raji, e mostrou que a viabilidade celular foi superior a 60% para concentrações ≤ 10 µg/mL. O estudo indicou que os extratos possuíam uma toxicidade relativamente reduzida, pois a viabilidade celular se situava entre 60% e 70%.
Toxicidade aguda: há relatos de óbito em animais (camundongos, ratos e cachorros) com uma dose de 4.570 mg/kg após a administração intraperitoneal, porém, não há registros de morte quando o extrato foi administrado por via oral. Dentre os resultados observados, contata-se o declínio na capacidade de andar e na atividade motora em doses mais elevadas. Além disso, a aplicação de xarope (a padronizado em 0,19% de Vitexina) em ratas na dose de 300 mg/kg por via oral, foi responsável por mudanças no comportamento sexual de seus filhotes.
Toxicidade subcrônica: não houve relatos.
Toxicidade crônica: em cães beagle nas doses de 4,3 mg/kg e em doses 10, 100 e 200 vezes maiores foram avaliadas a toxidade crônica do extrato, contudo, nenhum efeito prejudicial foi detectado nos animais avaliados.
Genotoxicidade: um estudo usando Aspergillus nidulans como modelo biológico, não revelou a formação de mutação nas concentrações testadas (0,162 a 1,296 mg/mL) o extrato não afetou a morfologia ou as condições das colônias, não havendo assim danos celulares ou atividade mutagênica. Apesar disso, o fitoterápico não tem indicação para uso frequentemente ou durante longos períodos em humanos.
Texto: Neidy Samara Sousa dos Santos
Revisão: Paulo Wender Portal Gomes/ Wandson Braamcamp de Souza Pinheiro
Imagem: Canva.com
Fontes consultadas:
BRASIL, Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Farmacopeia Brasileira. 6ª ed., v. II (Plantas Medicinais). Brasília, 2019.
BRASIL, Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira. 2ª ed., Brasília, 2021.
BRASIL, Ministério da Saúde. Informações Sistematizadas da Relação Nacional de Plantas Medicinais de interesse ao SUS. Brasília, 2021.
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